segunda-feira, 8 de agosto de 2016

MULHERES COMPOSITORAS (meu primeiro artigo sobre o tema)

O crítico do New York Times, Donald Henahan, num artigo recente declara: “O longo eclipse da mulher como compositora está chegando ao fim”. Para chegar a essa conclusão, ele ouviu e analisou obras contemporâneas, e preconiza com entusiasmo um lugar ao sol para as compositoras do presente e do futuro. Talvez uma nova mentalidade em relação à mulher compositora esteja surgindo.

                                MULHER MUSICISTA, NA ANTIGÜIDADE


Não existe referência direta à participação da mulher na atividade musical dos povos antigos, pois não havia consciência da mulher como participante e, além disso, há pouca informação sobre a música em si. Os antigos painéis egípcios mostram sempre mulheres tocando instrumentos – os de sopro, principalmente, seriam proibidos aos homens? Quer dizer que as mulheres tocavam – embora não se saiba se elas compunham o que tocavam. Segundo L. Ellmerich, “também em Canaã, que era fonte inesgotável de músicos, procuravam-se, principalmente, as orquestras de mulheres e dançarinas”.
Na Grécia, tocar flauta podia ser fator de ascensão social para a prostituta comum – “pornai” – que passava a “alêutrida”. Indro Montanelli, que também afirma que Aspásia foi a primeira feminista da História, conta que ela fez essa ascensão, antes de tornar-se “hetera” (categoria mais elevada ainda de mulher livre); depois, Aspásia casou-se com o estadista Péricles e chegou a fundar uma escola de filosofia e letras para moças, que fechou logo depois, por ser motivo de  escândalo.
Hoje nossos hábitos artísticos são mais “especializados”, mas na Grécia escrever poesia, criar música para ela, cantá-la e dançá-la era um só ato de criação. Das quatro diferentes artes conjugadas de um autor grego, só a poesia pôde ser grafada e conseqüentemente só ela chegou até nós. Por isso, hoje fala-se de Safo como poetisa, quando ela foi também compositora de talento, ocupando lugar de destaque entre os expoentes da Arte Grega, juntamente com Myrtis e Corinna (outras compositoras), ao lado de Píndaro e Anacreonte. Como todo artista atuante, Safo não foi poupada pela censura, que proibiu um “modo” (escala para composição) criado por ela por ser considerado “lascivo”.
As reuniões de família dos romanos eram animadas por audição de peças das damas, que assim exibiam mais uma de suas prendas – como se fazer música fosse o mesmo que executar uma toalha de crochê. Mas os romanos tiveram uma musicista que passou para a História. Santa Cecília, mártir cristã, hoje padroeira dos músicos.

NA SOCIEDADE OCIDENTAL


Na Idade Média, não há quase referência ou ilustração sobre a atividade musical feminina. Mas Tiana Amarante menciona o “Livro de Paula”, espécie de guia de comportamento para meninas, no qual um Marcelino de Carvalho da época previne que a menina não deve sequer tomar conhecimento da existência da música, a bem de sua moral.
Apesar da mentalidade vigente, uma grande figura de compositora surge na Idade Média – e é importante notar que ela deixou seu nome, numa era de autores anônimos: Santa Hildegard de Bingen. Alemã, também poetisa, ela viveu de 1098 a 1179 e compôs cerca de setenta peças musicais religiosas e o drama Ordo virtutum.
À medida em que termina a Idade Média, surge a ópera, delineia-se o balé, renasce o teatro; mas a participação da mulher nessas atividades é por algum tempo limitada. Até o século XVII, os papéis femininos eram sempre representados por homens, que afinal eram as maiores vítimas dos preconceitos: eram castrados, ao chegar à puberdade, para que suas vozes se mantivessem num registro agudo. Esse costume, bárbaro para nossos padrões atuais, foi acabando pouco a pouco, mas demorou para extinguir-se, pois o próprio Haydn (1732-1809), foi convidado a castrar-se e seu pai não o permitiu.

COMEÇAM A SURGIR COMPOSITORAS


O fim da castração coincide com o aparecimento das primeiras compositoras, e não por acaso. Tendo acesso à cena e à música, as mulheres puderam vir a ser profissionais, o que lhes garantia melhor formação musical e a possibilidade de mostrar o próprio trabalho.
O número de compositoras vai aumentando à medida em que o tempo passa. Nascidas no século XVII, temos cinco compositoras, das quais quatro são membros da família Couperin, que, como a família Bach, sobejava em músicos. Já o século XVIII registra treze compositoras. Amélie Julie Candeille e Maria Theresia von Paradis parece que foram as de maior êxito; mas o mesmo século poderia ter visto Anna Maria Mozart, talento precoce como o irmão, que não alcançou o profissionalismo e a fama deste.
O romantismo (século XIX) foi o período mais brilhante de nossa música ocidental e é também o mais documentado. Além das vinte e uma personalidades femininas de compositoras do período, merecem destaque especial Fanny Mendelssohn e Clara Schumann.
Fanny Mendelssohn foi a irmã de Felix e, como ele, recebeu primorosa educação musical. Dizem que aos nove anos tocava de memória o “Cravo Bem Temperado”, de Bach. Fanny dedicou-se à composição e suas peças aparecem, hoje, entre as do irmão, assinadas por ele. Kurt Pahlen diz que “Fanny sem dúvida se houvera tornado uma das pouquíssimas mulheres com gênio criador na música, se o pai não a houvesse convencido da opinião geral da época de que a arte para as mulheres só poderia ser adorno e passatempo, nunca uma profissão”.
Já o pai de Clara Wieck Schumann tinha uma outra posição. Era professor de piano e logo reconheceu o talento excepcional da filha: determinou mesmo que ela não se casasse, para poder dedicar-se inteiramente à música. Robert Schumann precisou recorrer aos tribunais para casar-se co ela, pois Herr Wieck opunha-se tenazmente ao casamento dos dois, apesar de gostar muito de Robert. De certa forma, esse pai radical tinha razão. Casada, Clara enfrentou todo tipo de dificuldades, teve seu tempo dividido entre o trabalho de casa, os seis filhos e, depois de algum tempo, as sucessivas crises de loucura do marido. Quando ele morreu, ela passou a sustentar a família, dando aulas de música e concertos para divulgar a obra dele. Suas composições, de nível respeitável, só agora começam a sair do esquecimento, mas ainda não têm a divulgação que merecem.
Do fim do século passado para cá é que se encontra a maior proporção de mulheres compositoras, ao todo setecentas e sessenta e três (exceto as brasileiras) das quais algumas encontraram apoio e chegaram a desenvolver carreira brilhante. Como Germaine Tailleferre, que pertenceu ao Grupo dos Seis, Gena Branscombe, Luísa Casagemas Poll, Mabel Wheeler Daniels e ainda Cécile Chaminade, autora da famosa “Scarf Dance”. Lili Boulanger (1893-1918), irmã da famosa Nadia Boulanger professora de harmonia que lecionou grandes nomes de nossa música contemporânea – foi uma compositora de extraordinária fertilidade. Com quatro anos de estudos assimilou os conhecimentos de conservatório. Apesar dos preconceitos, ganhou o Grande Prêmio de Roma, em 1913. Faleceu aos vinte e cinco anos e é reconhecida como um gênio inconteste.

NO BRASIL


A atividade musical da mulher brasileira poderia constituir-se num estudo à parte, pois o desenvolvimento cultural brasileiro segue rumos bem diferentes do europeu, ou norte-americano.
No Brasil Colonial viveu uma certa Dona Mariana, compositora de modinhas; e F. Kurt Lange, que pesquisou o ciclo do ouro, se refere a Ana Maria dos Santos, organista cega, e Thomazia Onofre do Lírio, ambas substitutas (em diferentes ocasiões) de Lobo de Mesquita – pois com a decadência da mineração as despesas foram reduzidas, substituindo-se os músicos de melhor paga pelos de menor.
No século passado, a condessa Rafaela Roswadovska encenou no Rio (1862) uma ópera de sua autoria, “Dois Amores”. Alguns anos depois, uma outra mulher encenava óperas no Brasil: Chiquinha Gonzaga. Mais conhecida como compositora popular, era também excelente compositora de operetas; e sua primeira ópera, com libreto de Artur Azevedo, não foi encenada... por ser música escrita por mulher. Mas as seguintes setenta e cinco o foram, com sucesso. Fazia também orquestração e foi a primeira mulher a reger em público no Brasil.
Dinorá de Carvalho, ainda hoje atuante, acumula prêmios no Brasil e Europa. Talvez seu nome não seja conhecido pelos brasileiros como mereceria, e como o é no exterior, mas neste ano de 1976 ela ganhou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Música, com a sua Sonata.    

BARONCELLI, Nilcéia C. da Silva, jornal Brasil Mulher, São Paulo, ano I, nr. 5, 1976, p.15


2 comentários:

Pedrita disse...

excelente nilcéia. beijos, pedrita

Eliana Monteiro da Silva disse...

Artigo maravilhoso como sempre Nilceia querida! Que tristeza constatar que, há 40 anos, você já disponibilizava estas informações, e, contudo, ainda hoje tão pouco se sabe soube a produção das mulheres no campo da música e das artes plásticas! Temos que agradecer por você nos brindar com estas pérolas e por jamais desanimar! Seu brilho e entusiasmo já encantou muita gente acerca do assunto, entre os (as) quais me incluo! Beijo grande
Eliana Monteiro da Silva